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Brócolis corporativo

Em treinamento é comum a gente entrar em discussões sobre como prender a atenção da sua audiência. Muita gente acredita que a atratividade de um curso – ou de uma trilha de aprendizagem – já deve vir embutida no treinamento e ser transmitida pelo instrutor/facilitador. Um treinamento enfadonho, tedioso e pouco atrativo é, em última análise, um treinamento mal feito.E aí a gente começa a ver todo tipo de técnicas para tornar o conteúdo mais atraente e palatável: atividades interativas, intervenções lúdicas e dinâmicas cuidadosamente criadas para que o participante se sinta envolvido e participe ativamente do seu próprio desenvolvimento.Pessoalmente, acredito que essas iniciativas são ótimas e realmente tendem a deixar o treinamento mais leve e agradável – para ambos os lados! Mas só até um certo ponto ou corre-se o risco de as dinâmicas ficarem maiores do que o próprio conteúdo.Uma vez participei de um treinamento em que se discutia a construção de uma casa. O case era tão bem feito que todo mundo saiu lembrando o que é alicerce, alvenaria, traço de concreto e reboco. Mas ninguém se lembrava o que era total cost of ownership.O meu ponto nessa discussão é que não se pode esperar que o treinamento faça mágica e transforme qualquer tema insosso em uma experiência antropológica até para os mais resistentes públicos. Essa não pode, jamais, ser uma tarefa exclusivamente do treinamento – seja ele realizado por equipe própria ou terceirizada.A parte de lá – que recebe o treinamento – tem que ter um mínimo de sintonia com o que está recebendo, tem que ter um mínimo de interesse em aprender, em se atualizar em participar daquilo que se está propondo. E isso não pode ser tarefa do instrutor/facilitador, tampouco de quem cria o curso/treinamento ou trilha de aprendizagem.Às vezes tenho a impressão de que quando a gente precisa disfarçar demais alguma coisa, é porque a outra pessoa não está muito interessada nisso, ou não reconhece o verdadeiro valor do que está à sua frente. Em casos assim, creio, é preciso dar um passo atrás. Se a pessoa não quer, não adianta disfarçar. Ela vai aceitar na hora e descartar em seguida.Uma imagem que sempre me vem à cabeça quando penso nisso é a da mãe tentando fazer seu filho pequeno comer os legumes ou tomar remédio. Ela faz mil estripulias para a criança engolir o que não quer.Inventa umas brincadeiras, se veste de fada, faz aviãozinho e canta musiquinhas até a criança se distrair e ela enfiar a colher goela abaixo.Ela pode até ter sucesso naquele momento, em que (aparentemente) está no controle da situação. Mas na maior parte da vida daquele indivíduo, ele vai tomar suas próprias decisões. Mas se essas preferências forem forjadas artificialmente – comer o brócolis ou participar de um treinamento – quando ele precisar andar por suas próprias pernas vai acabar almoçando hambúrguer e jantando pizza – regados a muito refrigerante.Se a pessoa não criar um hábito, se não enxergar ela própria o valor daquilo que consome, se ninguém der o exemplo (como bem lembrou o Marcos Noronha nos comentários) quem garante ela que vai tomar as atitudes necessárias quando ninguém tiver tomando conta?