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Qual o seu legado?

Quanto dinheiro você quer deixar para seus filhos?

Há tempos essa pergunta fica martelando na minha cabeça (já conto o porquê) e acho que já cheguei a uma conclusão: ZERO.

Acompanhei uma discussão sobre esforço vs. recompensa, em que uma das pessoas dizia que não era suficientemente remunerada em troca do sacrifício exigido pela empresa. A recompensa justa por tamanho esforço e dedicação seria, no seu modo de entender, sociedade na companhia. Essa seria, também, a forma de deixar a seu filho algum patrimônio (mais tarde ele diria que, aos 40 anos, não tinha perspectiva de garantir o futuro do seu herdeiro).

Antes de prosseguir, uma breve pausa para listar as coisas que não vou discutir aqui: se a pessoa realmente está se dedicando mais do que o habitual; se realmente a pessoa merece ganhar mais pelo esforço extra; e se esse extra é apenas quantidade e não qualidade.

Não está em jogo, tampouco, o fato de a firma não ser responsável por sua inabilidade em gerenciar suas finanças pessoais, de modo a ter uma poupança ou algo que o valha – seja para o filho ou para sua própria sobrevivência num inverno mais rigoroso. Isso não é obrigação da empresa (qualquer que seja) e não serve, portanto, como argumento aceitável. Considero, inclusive, de extremo mau gosto falar de filhos nesse contexto.

Para mim isso serve apenas como pano de fundo para esse post: por que precisamos deixar alguma coisa para nossos filhos?

Antes que você fique escandalizada ou grite que eu só digo isso porque não tenho filhos, permita-me a chance de expôr a natureza do meu pensamento: 99,99% das pessoas quando falam em herança referem-se a patrimônio.

Jamais ouvi alguém dizer que seu legado será um extremo capricho e uma dedicação exclusiva na formação dos filhos. Nunca escutei que um pai investiria todo o seu dinheiro, até o último centavo, na educação de suas crianças. Quando o assunto é passar algo às gerações seguintes, só uma coisa importa: dinheiro.

Todo mundo adora dizer que o importante não é dar o peixe a quem precisa, mas ensiná-lo a pescar. Se isso se aplica a um estranho, por que não serve, então, para a pessoa que você mais ama nesse mundo? Por que dar-lhe uma fazenda de peixes?

Você não precisa deixar um milhão de dólares para seu filho. Todo o seu empenho deve ser para ensiná-lo a ganhar dez milhões de dólares. E que ele ensine o filho dele a fazer cem milhões. Invista toda a sua fortuna, todas as suas economias, todo o seu tempo na inteligência do seu filho, na sua perspicácia, na sabedoria e principalmente na formação de uma pessoa que saiba andar pelas próprias pernas.

Porque se você leu ao menos o texto que fala das habilidades sociais segundo Gladwell, vai lembrar que ser a pessoa mais inteligente do mundo não resolve tudo.

Perseguir uma herança milionária representa assumir seu fracasso como pai ou mãe. Significa admitir que você criou uma pessoa que não conseguirá ser alguém na vida. Que sua criança vai se transformar num adulto incapaz de se manter. Um adulto criado num ambiente onde o princípio moral reinante é a acumulação de riqueza.

Você corre o risco de criar uma pessoa que não saberá o que fazer com uma herança, qualquer que seja sua ordem de grandeza. Vai torrar o dinheiro recebido e ainda vai dizer que era pouco.

O que fazer? Tenha um mega seguro de vida para o caso de você não conseguir completar seus planos. Mas se você conseguir completá-lo, seu filho não terá com o que se preocupar.

Ensine-o a raciocinar além, a questionar, a buscar outras respostas. Mostre-lhe como fazer isso de forma respeitosa, sem desconfiar, menosprezar nem humilhar. Deixe-o apresentar suas ideias, enriqueça suas propostas, fortaleça seus argumentos. Dê-lhe a lógica, ofereça-lhe a retórica, treine-lhe a dialética. Crie um potencial milionário, em vez de um herdeiro.

Antes que alguém se dê ao trabalho de me fazer confessar, adianto: Sim, pode ser que eu mude completamente de ideia no dia que um rodolfinho ou uma marianinha chorar pela primeira vez. Ou não. Posso ter mais certeza ainda.