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Por um momento, imagine o que foi viver há 500 anos. Época rústica, sem muitas das coisas que estamos acostumados hoje - vaso sanitário com sifão, por exemplo, é do século 18 - mas não menos desafiadora quando comparada com a nossa, guardadas devidas proporções.
A civilização ocidental, concentrada na Europa, tinha conhecimento limitado sobre fronteiras e coordenadas do planeta. O mapa europeu indicava um pedaço da Ásia, outro da África mas sofria com grandes erros de escala. Além disso, a circunferência da terra era extensão desconhecida ( já se sabia que o planeta era redondo ). Então, em menos de 100 anos, as dimensões do mundo conhecido foram multiplicadas. Mapas foram atualizados, escalas foram melhoradas, contornos foram definidos. O tamanho do mundo, para o europeu medieval, aumentou 3 vezes.

Lembrando tempos passados, sua empresa, provavelmente, começou menor do que é hoje, seja em número de funcionários, faturamento ou algum outro indicador. Enquanto alguns gostam de invocar “tradição desde” como estratégia de marketing para falar que a empresa foi fundada há 30 anos, os mais pragmáticos lembram que 10, 20 ou 30 anos de história são uma vírgula no tempo, texto maior da existência do homem e suas obras. Pois não importa quanto tempo decorreu desde a fundação do seu negócio até hoje: as dimensões mudaram, multiplicadas por algum número real. 2, 3, 7 vezes - interessa perceber que o tamanho mudou.

Há 500 anos, todos os mapas tiveram que ser jogados fora. Tudo o que se sabia sobre geografia do planeta, num estalo de dedos, precisava ser atualizado. O comércio global se expandia para todas as direções em altas velocidades e economias nacionais dependiam de coordenadas atualizadas. Esforço, diligência e informações trouxeram resultados e na alvorada do século 17 os mapas já reproduziam uma Terra mais completa. A cortina da idade medieval se erguia e o mundo era visto com maior claridade e definição.

Enquanto isso, naquela empresa que começou pequena e multiplicou seu tamanho por número real, os desafios não tem o peso e desdobramentos que mobilizaram nações há 500 anos. Não obstante, se assemelham com a dramática mudança de coordenadas e dimensões. Decisões, agora, trazem um componente maior de complexidade: abrir ou não uma filial? construir ou não um CD? reformar ou não o salão de vendas? Decisões complexas precisam de novas coordenadas.

Até certo ponto, consegue-se tocar o negócio sem DRE e fluxo de caixa, apoiado na intuição e experiência bruta. Mas assim como o homem do século 16, para estender seus horizontes, precisou jogar fora seus mapas rudimentares, esse momento chega para sua empresa também. É inexorável. Coordenadas precisam ser atualizadas para suportar decisões complexas. Enquanto bússolas sofisticadas ajudaram capitães cruzarem oceanos e produzir mapas novos, variação EBITDA, liquidez corrente e outras informações avançadas de gestão cumprem idêntica função para este empresário que vê seu negócio multiplicado por n e precisa navegar com segurança em modernas águas agitadas.

Portanto, levantar a cortina de uma administração medieval, atualizar coordenadas e produzir mapas novos - esse momento, inevitável, chega para qualquer empresa. Você precisa estar preparado.

A tapeçaria persa é consagrada como arte. Feitos para durar centenas de anos, os tapetes de Kashan, Qom e Isfahan alcançam cifras milionárias. O que faz estes tapetes alcançarem o estatuto de joias caras é, principalmente, sua técnica de feitio: qualidade dos fios, tingimento das cores e quantidade de nós. Apurada com a prática disciplinada, a destreza do tecelão produz peças que decoram e valorizam ambientes.

Na outra ponta da escala, você encontra tapetes baratos feitos com técnicas semelhantes: também existem nós, fios tingidos e a destreza manual. Mas não alcançam o valor ou a consagração dos tapetes persas nem são feitos para durar.

Há bastante que criar e fazer no mundo de empresas: tipos de negócios que sequer imaginamos hoje ou transformações nos que já existem. Pensar até onde vai a fronteira moderna das empresas é exercício especulativo. Mas entre a fronteira moderna e a antiga arte da tapeçaria persa existe um fio condutor: o conhecimento e a prática que produzem resultados de valor.

Nos tapetes persas não existem pontas soltas - todos fios estão atados e dispostos num desenho equilibrado. Cada fio está em seu lugar e não existem espaços vazios. O tecelão, disciplinado, aprende como apurar sua técnica e dedica esforço para desenvolvê-la até alcançar o resultado desejado.

Nas empresas que alcançam o estatuto de empreendimentos de valor - não refiro ao tamanho, mas aos resultados - não existem pontas soltas. Cada processo está atado numa trama coerente de tarefas a serem feitas - espaços vazios são desperdícios e devem ser corrigidos. Leva anos para o empreendedor desenvolver suas competências: você, que tem um negócio, sabe do que falo. Não é da noite para o dia que se aprende o que se deve sobre gestão financeira, de estoques e de pessoas. Acertos e erros são cometidos até alcançar o estado de arte necessário na gestão e produzir resultados de valor.

E existem empresas que são como tapetes baratos: pontas soltas e espaços vazios, gestão rudimentar e ineficaz. São negócios que não duram, as vezes apenas o suficiente para dar certo conforto à família. Não são tapetes persas. Ali, sentado em um tapete barato, você encontra um tecelão amador, que não aprendeu como amarrar os fios do seu negócio e usa empirismo bruto para gerenciar a empresa.

Não precisa ser assim: este tecelão - empresário, empreendedor - não está condenado a permanecer sentado num tapete barato. Não é difícil aprender o conhecimento e a prática que produzem resultados de valor. Comece com vídeo-aulas no Youtube (ex.: https://goo.gl/4TCsQX ), leia livros práticos (ex.: O Verdadeiro Poder, de Vicente Falconi) passe pelo EMPRETEC, programa de capacitação do SEBRAE e termine com cursos de gestão de rápida duração em escolas de negócios. Exige-se apenas vontade e certa dose de esforço para aprender o conhecimento da boa tapeçaria.

Você nunca vai ver um tapete de Kashan sendo usado para limpar solas sujas. Sua empresa, independente do tamanho ou tipo de negócio, deve alcançar igual estatuto: uma joia cara, jamais um tapete barato.

O Renascimento italiano dos séculos XV e XVI irrompeu como janela estufada por forte vento e a luz e forma invadiram a sala escura e fria do homem medieval. Qualquer obra deste período, arte ou literatura, é prova imortal do belo e perfeito enebriantes. Por entre Dante, Leonardo, Maquiavel, Rafael e Erasmo, um passo a frente e um ponto acima está Michelangelo, arquiteto e artista do sublime, pintor e pai da Capela Sistina, escultor e pai de Davi. Sua arte transcende a pedra a tal ponto que a lenda conta que terminando seu 'Moisés' e de pé diante da estátua, falou admirado 'Perchè non parli?' - 'Porque não falas?'

Poucas coisas a fazer no cotidiano, para nós que não somos Michelangelos, tem estatura desta arte que nos extasia. São reduzidas chances que temos de produzir arte sublime alguma vez na vida - com exceção dos filhos e, há quem diga, da vida conjugal. O mundo é chão suficiente para nos envolver com tarefas necessárias e terrenas: trabalhar, abrir empresas e empregos, pagar contas e salários e assim prosseguir caminhando em direção ao futuro. Tudo isto é importante, ninguém duvida, mas para muitos escapa que esta é a nossa versão moderna de uma arte, a arte de viver. “Lieben und arbeiten” ou "Amar e trabalhar", bem disse Freud que são as coisas que mais importam para o ser humano. Neste curto insight, o "Amar" fica aqui e vamos prosseguir só com o "Trabalhar".

À Michelangelo se atribui autoria desta frase:

"Lembra-te que insignificâncias causam a perfeição e a perfeição não é uma insignificância."

Podemos vê-lo trabalhando, perfeccionista, investindo esforço nos detalhes, nos menores e minúsculos, com férrea disciplina.

O "trabalhar", que alcançou estatuto de preencher os dias de todos nós, pode ser feito com parte do empenho possível, com um pedaço do compromisso possível, com uma fração da perfeição possível, com um resto da energia possível? Se assim é feito, com negligência branda e diluída que não compromete o resultado final, quem respeitará nosso trabalho e esforço? ...ilusão, pois ninguém fica de pé diante da estátua mal-feita, do trabalho mal-feito e ordinário e estes não duram até a próxima estação. Deve ser bem feito o trabalho que precisa ser feito.

Você poderá ser respeitado pelo esforço à busca do trabalho perfeito, mesmo que não o alcance, ao contrário da displicência e desatenção. Pode ser que não haja consagração, pode ser que não alcance perfeição - ainda assim, o esforço deixará marcas nos detalhes, nas atitudes, no conhecimento, nos gestos. E se não é isto que leva àquela sabedoria prática, esta sabedoria do fazer e do realizar, então, o que leva? Está enganado quem busca atalhos e caminhos e economias.

Há quem troque de trabalho e invés de padaria, abre loja de ferragens, invés do trabalho de balcão, prefere trabalho de escritório, invés de caneta e papel, prefere teclado. Mas fica de pé o compromisso de fazer o trabalho, qualquer trabalho, bem feito, fica de pé o compromisso com a perfeição das insignificâncias. E se Freud está certo - provavelmente está -, negligenciar o trabalho é viver pela metade. Aquele que é indiferente ao resultado do seu trabalho vive pela metade. Indigno.

A perfeição não é uma insignificância.

“Minha intuição falhou comigo, então não confiarei nela de novo”. A maioria das decisões é tomada sem notar, portanto, você deve confiar na sua intuição?

Trouxemos este assunto para debater na Centrífuga:

A 'Centrifuga Debate - Você confia na sua intuição?  também está em formato podcast:

'Em um momento que estamos testemunhando uma rápida mudança da indústria tradicional para empresas baseadas no conhecimento - e como resultado, uma transformação no trabalho dos administradores e na prática da administração - o "Primeiro os Colaboradores, depois os clientes" desenvolve questões importantes. Existe um valor inerente em cada colaborador - em seu conhecimento, sua criatividade, seu comprometimento com o trabalho e sua capacidade de cooperar?'

Nesta Centrífuga Clube do Livro, conversamos sobre "Primeiro os Colaboradores, depois os clientes", um livro que responde estas e outras perguntas:

A Centrífuga Clube do Livro - Primeiro os Colaboradores, depois os clientes' também está em formato podcast: