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Na II Guerra, o matemático Abraham Wald foi ajudar os aliados a proteger seus aviões de combate. Sua tarefa consistia em determinar que áreas da fuselagem precisariam ser reforçadas, para aumentar a resistência sem comprometer o equilíbrio e a velocidade das aeronaves.

Em suas pesquisas, ele percebeu que a maioria dos estragos causados pela artilharia antiaérea inimiga se concentrava na região das asas, na cauda e no centro das aeronaves. Para os engenheiros militares, era nessas áreas que as chapas de aço deveriam ser colocadas para resolver o problema. Wald, no entanto, percebeu que essa era uma falha grave de raciocínio.

Ora, se o avião levava tiros nas asas, na cauda e no centro da fuselagem e mesmo assim voltava em segurança, então não eram essas áreas que precisavam ser reforçadas. Os aviões que caíam levavam tiros em outros lugares.

O que o Viés do Sobrevivente revela é que tentamos corrigir os erros olhando para os acertos –– mesmo que eles tenham pequenos defeitos. Notem que esses pequenos defeitos não impedem que algo dê certo.

Os grandes defeitos, os erros que levam ao fracasso, estão nos aviões que caíram. E é para eles que devemos olhar. Por isso eu não gosto de narrativas que só falam dos vitoriosos. Talvez as lições mais importantes estejam com os derrotados.

Em uma aula do doutorado em estatística, o professor mostrava duas equações nunca resolvidas antes. Um aluno chegou tarde e perdeu essa explicação, mas copiou as equações.

George Dantzig, o aluno atrasado, voltou ao professor dias depois dizendo que o dever de casa tinha sido mais difícil que o normal e, por isso, demorou mais para terminar.

Por que ele resolveu as equações? Provavelmente porque viu um dever de casa e não equações impossíveis de resolver. Se ele achasse que era impossível, talvez não insistisse tanto e aceitasse logo o fracasso.

A psicóloga Carol Dweck, acredita que temos duas maneiras de encarar a inteligência e, por extensão, os desafios:

• uns acham que nascemos com uma quantidade de inteligência – e ou somos inteligentes, ou não. É o mindset fixo;
• outros acreditam que a inteligência sempre pode aumentar, melhorar. É o mindset de crescimento.

Assim, o mindset interfere em como lidamos com os erros. Quem acredita no mindset fixo tem medo de errar, pois isso significa que sua quantidade de inteligência é baixa. E esse medo de errar aos poucos se transforma em medo de tentar. É uma crença limitante.

E se alguém tem medo de tentar algo difícil, imagina se achar que é impossível e vários já fracassaram? Dantzig, que não sabia de nada, foi lá, tentou e conseguiu.

“Se algo pode dar errado, dará” diz a Lei de Murphy. A frase, normalmente dita depois de um revés, esconde duas lições que teimamos em não aprender:

“Se algo não pode dar errado, não dará”. Embora óbvia, a frase lembra que para algo dar errado, suas causas precisam estar a postos, na hora certa. Se não estiverem, nada dará errado.

E por qual destas causas – que resultaram no problema – você é diretamente responsável? Qual delas aconteceu por culpa ou negligência sua?

“Se algo pode dar errado, é mais provável que não dê”. Quando você chega no trabalho, não fica se repetindo que o carro ligou, o pneu não furou e você não bateu o carro. Tudo isto não acontece todo dia – embora pudesse ter acontecido.

A maioria das coisas tem uma explicação. Sua torrada, por exemplo, sempre cai com a manteiga para baixo por uma razão simples: Física. Quando ela começa a cair, vai girando e, pelo fato de as mesas não serem muito altas, não dá tempo de dar um giro completo em torno do seu eixo. No máximo, dá meio giro. Logo, aterrissa com a manteiga para baixo. Mas quem deixou a torrada cair foi você, não o Murphy.

Tudo o que acontece na sua vida é culpa sua, de terceiros, ou do acaso. Não há uma quarta opção. Murphy é só um bode expiatório.

Imagine que você está numa sala participando de um projeto sobre ferramentas de avaliação de personalidade. Acabou de preencher um questionário, avaliando até que ponto concorda com frases do tipo: “você tem necessidade que as pessoas gostem de você e admirem-no” e “você tende a ser muito crítico consigo mesmo”.

Neste momento, recebe o resultado da avaliação que traça o seu perfil psicológico e fica particularmente satisfeito em ler coisas do tipo:

“Tem inteligência e atenção acima da média. Fica deprimido às vezes, mas não a ponto de ser considerado mau humorado, porque normalmente é alegre e otimista. É dotado de boa disposição, embora já tenha precisado lutar para controlar seus impulsos e temperamento. É ambicioso e merece crédito por buscar sempre o melhor para você e aqueles mais próximos”.

A tarefa seguinte é avaliar o quão fiel é a tal análise e, numa escala de 0 (pouco fiel) a 5 (retrato fiel), dá 4 para não parecer previsível demais. Iria para casa muito satisfeito da vida consigo mesmo, se o pesquisador não tivesse revelado que todos os participantes do estudo receberam exatamente a mesma descrição de perfil e, ainda pior, que a média das avaliações ficou em 4,26.

Isto significa que 80% das pessoas da sala são rigorosamente idênticas. Inclusive você. Claro, isso enquanto você acreditar neste tipo de avaliação.

A situação descrita acima de fato ocorreu – não com você, espero – há quase 70 anos (precisamente em 1948), num estudo realizado por Bertram Forer, para verificar a validade de instrumentos de autoavaliação psicológica. Desde então, utiliza-se o termo efeito Forer, ou falácia da validação pessoal, para descrever situações nas quais a pessoa se identifica profundamente com descrições absolutamente genéricas, pelo simples fato de achar que elas são personalizadas – embora não sejam, realmente.

Forer acrescenta que “(…) virtualmente qualquer traço psicológico pode ser observado em qualquer ser humano, em algum grau. (…) Não é na presença ou ausência destes traços que as pessoas diferem”. E continua: “Avaliações de personalidade podem ser – e frequentemente são – baseadas em termos tão gerais que não têm validade para a descrição do comportamento”.

Outra característica comum a estas balelas é que frequentemente elas têm conotação positiva. Mesmo que haja alguma crítica, ela logo é amenizada por algo mais benigno, reforçando a ideia de que você é lindo e maravilhoso. Assim, fica mais difícil discordar de uma descrição pessoal recheada de elogios.

Isto inclui os livros de autoajuda, que você sempre acha que foram escritos sob medida para você, mas que diz coisas tão genéricas que poderiam ser aplicadas, também, ao seu cachorro (evitei falar em gatos porque aí é uma personalidade bem mais complexa).

A esta categoria acrescente, também, os Horóscopos – a menos que você acredite ter 583 milhões de pessoas no mundo vivendo as mesmas coisas que você.

Por isso, quando receber uma dessas avaliações, preste atenção se as descrições não são muito vagas, ou ambíguas demais. Quando alguém diz que você "pode ter uma surpresa até o final da semana," está implícito, também, que você pode não ter a surpresa.

E, pior: o conceito de surpresa não está definido. Então, se você espera que algo aconteça, mas nada acontecer, isso não seria uma surpresa? Ou seja, a pessoa não disse absolutamente nada.

E o nome disso é autoajuda.