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Hora do almoço. Em vez de dar comida às crianças, vamos levá-las na loja de brinquedos. A mais velha escolhe um bonequinho do Super Mário e, a outra, uma bonequinha do filme da Disney. Um pacote de jujubas de brinde para cada, R$ 30 de conta e pronto, vamos embora.

– Ué, mas e o almoço?
– Como assim? Que almoço? As crianças já almoçaram. Cada uma comeu um pacote de jujubas. E ainda estão levando um brinquedinho para casa.

Se a história acima parece esdrúxula é somente porque foi contada desta forma. Mas ela acontece todos os dias, milhares de vezes, em famílias de todos os níveis sociais. É que em vez de ir à loja de brinquedos, a família vai ao McDonald’s – o que, no final, dá no mesmo.

Presenciei cena rigorosamente igual, num shopping, e daí veio o insight. Duas meninas na mesa abrindo seus brinquedos. O cheeseburger fica intocado, abandonado de lado. Batata frita idem. A única coisa que elas ingerem é o refrigerante.

Aí, em um gesto de extrema demonstração de poder, de grande conhecimento de psicologia infantil e nutrição, a mãe diz que a menina só pode beber o refriferante se comer a “comida”. A menina retruca e a mãe cede com a condição de ela comer as batatas fritas. O cheseburger segue intocado.

Agora vamos ver o que aconteceu na cena:

  1. A criança não queria ir ao McDonald’s. Ela queria um brinquedo. Claro! Toda criança quer. Mas do alto dos seus três anos de idade, ela já aprendeu que brinquedo da loja de brinquedos a mãe não dá. Mas brinquedo junto com junkie food ela dá. E nem precisa comer a junkie food. Pode ser que a mãe obrigue a criança a comer. Junkie Food. E pode ser que a criança comece a gostar. De junkie food. E que depois ela só queira junkie food, mesmo que não ligue mais para os brinquedos. E a mãe vai perguntar onde foi que ela errou?
  2. Comer bife e brócolis em casa ou tomar refrigerante e ganhar brinquedo na rua? Opção número dois, por favor.
  3. Engordar já não é mais problema, hoje em dia. Em vez de se preocuparem com a saúde dos filhos, as mães de hoje repetem o discurso que aprenderam na Marie Claire: “as pessoas vão gostar de você pelo que você é, meu amor. Se você está feliz com o seu corpo, então você é o máximo. Seja quem você quiser ser. Além disso, se o seu amiguinho chamar você de gorda, você conta pra mamãe e eu reclamo com a Diretora e chamo a polícia. E não precisa comer a batata frita. Come só o nugget que eu vou buscar o seu sorvete. E deixa que eu imprimo sua lição de casa pra você poder ver as Titiquitas.”

Só pra terminar o show de horrores: a comida da mãe chegou. Toda balanceada. Mas ela comeu o cheseburguer da filha e o da amiga da filha. E as batatas. E ainda não entende por quê não consegue emagrecer se sua dieta é um primor. Ela ainda não entendeu que o que emagrece é o que ela come, não o que ela pede – e o que ela pede não guarda nenhuma relação com o que ela come, no fim das contas.

E as meninas? Bem, as meninas comeram o arroz do prato da mãe. Com as mãos.

Por um momento, imagine o que foi viver há 500 anos. Época rústica, sem muitas das coisas que estamos acostumados hoje - vaso sanitário com sifão, por exemplo, é do século 18 - mas não menos desafiadora quando comparada com a nossa, guardadas devidas proporções.
A civilização ocidental, concentrada na Europa, tinha conhecimento limitado sobre fronteiras e coordenadas do planeta. O mapa europeu indicava um pedaço da Ásia, outro da África mas sofria com grandes erros de escala. Além disso, a circunferência da terra era extensão desconhecida ( já se sabia que o planeta era redondo ). Então, em menos de 100 anos, as dimensões do mundo conhecido foram multiplicadas. Mapas foram atualizados, escalas foram melhoradas, contornos foram definidos. O tamanho do mundo, para o europeu medieval, aumentou 3 vezes.

Lembrando tempos passados, sua empresa, provavelmente, começou menor do que é hoje, seja em número de funcionários, faturamento ou algum outro indicador. Enquanto alguns gostam de invocar “tradição desde” como estratégia de marketing para falar que a empresa foi fundada há 30 anos, os mais pragmáticos lembram que 10, 20 ou 30 anos de história são uma vírgula no tempo, texto maior da existência do homem e suas obras. Pois não importa quanto tempo decorreu desde a fundação do seu negócio até hoje: as dimensões mudaram, multiplicadas por algum número real. 2, 3, 7 vezes - interessa perceber que o tamanho mudou.

Há 500 anos, todos os mapas tiveram que ser jogados fora. Tudo o que se sabia sobre geografia do planeta, num estalo de dedos, precisava ser atualizado. O comércio global se expandia para todas as direções em altas velocidades e economias nacionais dependiam de coordenadas atualizadas. Esforço, diligência e informações trouxeram resultados e na alvorada do século 17 os mapas já reproduziam uma Terra mais completa. A cortina da idade medieval se erguia e o mundo era visto com maior claridade e definição.

Enquanto isso, naquela empresa que começou pequena e multiplicou seu tamanho por número real, os desafios não tem o peso e desdobramentos que mobilizaram nações há 500 anos. Não obstante, se assemelham com a dramática mudança de coordenadas e dimensões. Decisões, agora, trazem um componente maior de complexidade: abrir ou não uma filial? construir ou não um CD? reformar ou não o salão de vendas? Decisões complexas precisam de novas coordenadas.

Até certo ponto, consegue-se tocar o negócio sem DRE e fluxo de caixa, apoiado na intuição e experiência bruta. Mas assim como o homem do século 16, para estender seus horizontes, precisou jogar fora seus mapas rudimentares, esse momento chega para sua empresa também. É inexorável. Coordenadas precisam ser atualizadas para suportar decisões complexas. Enquanto bússolas sofisticadas ajudaram capitães cruzarem oceanos e produzir mapas novos, variação EBITDA, liquidez corrente e outras informações avançadas de gestão cumprem idêntica função para este empresário que vê seu negócio multiplicado por n e precisa navegar com segurança em modernas águas agitadas.

Portanto, levantar a cortina de uma administração medieval, atualizar coordenadas e produzir mapas novos - esse momento, inevitável, chega para qualquer empresa. Você precisa estar preparado.

Quanto dinheiro você quer deixar para seus filhos?

Há tempos essa pergunta fica martelando na minha cabeça (já conto o porquê) e acho que já cheguei a uma conclusão: ZERO.

Acompanhei uma discussão sobre esforço vs. recompensa, em que uma das pessoas dizia que não era suficientemente remunerada em troca do sacrifício exigido pela empresa. A recompensa justa por tamanho esforço e dedicação seria, no seu modo de entender, sociedade na companhia. Essa seria, também, a forma de deixar a seu filho algum patrimônio (mais tarde ele diria que, aos 40 anos, não tinha perspectiva de garantir o futuro do seu herdeiro).

Antes de prosseguir, uma breve pausa para listar as coisas que não vou discutir aqui: se a pessoa realmente está se dedicando mais do que o habitual; se realmente a pessoa merece ganhar mais pelo esforço extra; e se esse extra é apenas quantidade e não qualidade.

Não está em jogo, tampouco, o fato de a firma não ser responsável por sua inabilidade em gerenciar suas finanças pessoais, de modo a ter uma poupança ou algo que o valha – seja para o filho ou para sua própria sobrevivência num inverno mais rigoroso. Isso não é obrigação da empresa (qualquer que seja) e não serve, portanto, como argumento aceitável. Considero, inclusive, de extremo mau gosto falar de filhos nesse contexto.

Para mim isso serve apenas como pano de fundo para esse post: por que precisamos deixar alguma coisa para nossos filhos?

Antes que você fique escandalizada ou grite que eu só digo isso porque não tenho filhos, permita-me a chance de expôr a natureza do meu pensamento: 99,99% das pessoas quando falam em herança referem-se a patrimônio.

Jamais ouvi alguém dizer que seu legado será um extremo capricho e uma dedicação exclusiva na formação dos filhos. Nunca escutei que um pai investiria todo o seu dinheiro, até o último centavo, na educação de suas crianças. Quando o assunto é passar algo às gerações seguintes, só uma coisa importa: dinheiro.

Todo mundo adora dizer que o importante não é dar o peixe a quem precisa, mas ensiná-lo a pescar. Se isso se aplica a um estranho, por que não serve, então, para a pessoa que você mais ama nesse mundo? Por que dar-lhe uma fazenda de peixes?

Você não precisa deixar um milhão de dólares para seu filho. Todo o seu empenho deve ser para ensiná-lo a ganhar dez milhões de dólares. E que ele ensine o filho dele a fazer cem milhões. Invista toda a sua fortuna, todas as suas economias, todo o seu tempo na inteligência do seu filho, na sua perspicácia, na sabedoria e principalmente na formação de uma pessoa que saiba andar pelas próprias pernas.

Porque se você leu ao menos o texto que fala das habilidades sociais segundo Gladwell, vai lembrar que ser a pessoa mais inteligente do mundo não resolve tudo.

Perseguir uma herança milionária representa assumir seu fracasso como pai ou mãe. Significa admitir que você criou uma pessoa que não conseguirá ser alguém na vida. Que sua criança vai se transformar num adulto incapaz de se manter. Um adulto criado num ambiente onde o princípio moral reinante é a acumulação de riqueza.

Você corre o risco de criar uma pessoa que não saberá o que fazer com uma herança, qualquer que seja sua ordem de grandeza. Vai torrar o dinheiro recebido e ainda vai dizer que era pouco.

O que fazer? Tenha um mega seguro de vida para o caso de você não conseguir completar seus planos. Mas se você conseguir completá-lo, seu filho não terá com o que se preocupar.

Ensine-o a raciocinar além, a questionar, a buscar outras respostas. Mostre-lhe como fazer isso de forma respeitosa, sem desconfiar, menosprezar nem humilhar. Deixe-o apresentar suas ideias, enriqueça suas propostas, fortaleça seus argumentos. Dê-lhe a lógica, ofereça-lhe a retórica, treine-lhe a dialética. Crie um potencial milionário, em vez de um herdeiro.

Antes que alguém se dê ao trabalho de me fazer confessar, adianto: Sim, pode ser que eu mude completamente de ideia no dia que um rodolfinho ou uma marianinha chorar pela primeira vez. Ou não. Posso ter mais certeza ainda.

O Renascimento italiano dos séculos XV e XVI irrompeu como janela estufada por forte vento e a luz e forma invadiram a sala escura e fria do homem medieval. Qualquer obra deste período, arte ou literatura, é prova imortal do belo e perfeito enebriantes. Por entre Dante, Leonardo, Maquiavel, Rafael e Erasmo, um passo a frente e um ponto acima está Michelangelo, arquiteto e artista do sublime, pintor e pai da Capela Sistina, escultor e pai de Davi. Sua arte transcende a pedra a tal ponto que a lenda conta que terminando seu 'Moisés' e de pé diante da estátua, falou admirado 'Perchè non parli?' - 'Porque não falas?'

Poucas coisas a fazer no cotidiano, para nós que não somos Michelangelos, tem estatura desta arte que nos extasia. São reduzidas chances que temos de produzir arte sublime alguma vez na vida - com exceção dos filhos e, há quem diga, da vida conjugal. O mundo é chão suficiente para nos envolver com tarefas necessárias e terrenas: trabalhar, abrir empresas e empregos, pagar contas e salários e assim prosseguir caminhando em direção ao futuro. Tudo isto é importante, ninguém duvida, mas para muitos escapa que esta é a nossa versão moderna de uma arte, a arte de viver. “Lieben und arbeiten” ou "Amar e trabalhar", bem disse Freud que são as coisas que mais importam para o ser humano. Neste curto insight, o "Amar" fica aqui e vamos prosseguir só com o "Trabalhar".

À Michelangelo se atribui autoria desta frase:

"Lembra-te que insignificâncias causam a perfeição e a perfeição não é uma insignificância."

Podemos vê-lo trabalhando, perfeccionista, investindo esforço nos detalhes, nos menores e minúsculos, com férrea disciplina.

O "trabalhar", que alcançou estatuto de preencher os dias de todos nós, pode ser feito com parte do empenho possível, com um pedaço do compromisso possível, com uma fração da perfeição possível, com um resto da energia possível? Se assim é feito, com negligência branda e diluída que não compromete o resultado final, quem respeitará nosso trabalho e esforço? ...ilusão, pois ninguém fica de pé diante da estátua mal-feita, do trabalho mal-feito e ordinário e estes não duram até a próxima estação. Deve ser bem feito o trabalho que precisa ser feito.

Você poderá ser respeitado pelo esforço à busca do trabalho perfeito, mesmo que não o alcance, ao contrário da displicência e desatenção. Pode ser que não haja consagração, pode ser que não alcance perfeição - ainda assim, o esforço deixará marcas nos detalhes, nas atitudes, no conhecimento, nos gestos. E se não é isto que leva àquela sabedoria prática, esta sabedoria do fazer e do realizar, então, o que leva? Está enganado quem busca atalhos e caminhos e economias.

Há quem troque de trabalho e invés de padaria, abre loja de ferragens, invés do trabalho de balcão, prefere trabalho de escritório, invés de caneta e papel, prefere teclado. Mas fica de pé o compromisso de fazer o trabalho, qualquer trabalho, bem feito, fica de pé o compromisso com a perfeição das insignificâncias. E se Freud está certo - provavelmente está -, negligenciar o trabalho é viver pela metade. Aquele que é indiferente ao resultado do seu trabalho vive pela metade. Indigno.

A perfeição não é uma insignificância.

“Minha intuição falhou comigo, então não confiarei nela de novo”. A maioria das decisões é tomada sem notar, portanto, você deve confiar na sua intuição?

Trouxemos este assunto para debater na Centrífuga:

A 'Centrifuga Debate - Você confia na sua intuição?  também está em formato podcast: