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Kim Jong-Un é um dos líderes mais efetivos e brilhantes das últimas décadas. Ok, vou perder algumas centenas de seguidores depois dessa. Mas continue lendo para entender onde eu realmente quero chegar.

Não, não estou maluco (ainda). Também não estou dizendo que ele seja um líder bom, mas é inegável que é um excelente estrategista político. A Coreia do Norte é um dos países mais pobres do mundo, com um PIB comparável a um daqueles países africanos que você nunca ouviu falar, e tem 50% da sua população abaixo da linha da pobreza. Isso pode te fazer achar que eu estou errado, mas, na verdade, é justamente o oposto.

Se a família Kim fosse tão louca quanto se acredita, dificilmente eles estariam no poder há 7 décadas. Os caras sabem o que estão fazendo. E muito bem. Apesar de tanta pobreza, Kim Jong-Un é venerado pela população. Não é por acaso.

Qual o maior desafio do líder político

Para entender a ideia desse artigo, primeiro temos que discutir o que é ser líder político e qual seu objetivo final. Faça esse exercício reflexivo: abra sua mente e esqueça tudo que você acredita sobre governantes.

Por que governantes nunca conseguem ver claramente os mesmos problemas sociais que você e seus amigos veem? Por que eles sempre agem de forma egoísta, auto-destrutiva e com uma visão limitada de curto prazo?

A realidade é que nenhuma pessoa nunca governa sozinha. Um governante não pode construir estradas, garantir que as leis sejam aplicadas e nem defender o país sozinho. Para isso, ele precisa de outras pessoas agindo por ele. E é aí que reside o problema.

Para fazer essas pessoas trabalharem, ele precisa usar recursos financeiros (advindos dos impostos). Caso contrário, haveria uma revolta e ele perderia o reinado. Acontece que, dependendo do sistema político do país, esse número de "chaves políticas" pode acabar sendo maior ou menor.

Você provavelmente acredita que o objetivo do governante é trabalhar em favor da sociedade. E isso parece o óbvio. Mas isso, na verdade, é o conceito de gestão política. O governante, como indivíduo, antes de mais nada, está sempre querendo garantir seu trono. Afinal, só assim ele é capaz de ser um "governante".

Dito de outra forma, assim como o instinto humano é sempre sobreviver, o instinto do governante é sempre sobreviver na liderança. Parece um pouco exagerado em um primeiro momento, e, de fato, com a perspectiva de um liderado, isso é horrível. Mas com a perspectiva do líder, faz total sentido.

Pense no nosso próprio contexto. Por que temos um presidente que não consegue aprovar as reformas que ele deseja, como a da previdência? Simples, para mexer nesse ninho nebuloso ele precisaria acabar com a mordomia de muita gente importante (juízes, promotores e militares).

Portanto, quaisquer mudanças que você queira fazer para a sociedade não são nada além de pensamentos, se você não conseguir, antes, satisfazer as vontades dos outros indivíduos-chave do governo. Essa é a dura e triste realidade.

Como ditadores resolvem esse problema? Eles limitam o número de "chaves políticas". Alguns poucos generais, burocratas e líderes regionais. Dessa forma, garantir a lealdade dessas pessoas é muito mais fácil (leia-se mais barata).

Mas não se deixe enganar: a lealdade é frágil. No menor sinal de insatisfação eles irão imediatamente tirar o governante do poder. Logo, na cabeça do governante, cada centavo gasto com a população é um centavo a menos gasto em conseguir lealdade.

Essa é a mensagem do livro Dictator's Handbook. Se você ainda não leu, esse livro precisa estar no topo da sua lista de livros a ler. É imperdível.

Dessa maneira, quando eu digo que Kim Jong-Un é um líder efetivo e brilhante, não estou dizendo que ele seja bom para a população, mas, no caráter de líder como sobrevivente, o cara é mestre.

Por que Kim é um líder brilhante

O ditador norte-coreano, assim como seu pai e avô, conseguir seguir exatamente o que o manual do ditador manda. E estão entre os que melhor fizeram isso.

A primeira grande estratégia usada pelo governo norte-coreano é o controle total da mídia. Dessa forma, não importa o quão ferrados estejam os norte-coreanos, a mídia local sempre falará que o mundo inteiro está pior. E, claro, como ninguém conhece a realidade externa, todos acabam acreditando.

Uma má qualidade de vida não é uma consequência de uma série de erros administrativos, mas uma decisão política muto bem estruturada. Liberdade de imprensa nunca foi uma prioridade na lista de demandas de qualquer população. Especialmente quando você mal consegue alimentar seus filhos.

Por outro lado, se Kim trouxesse uma vida melhor para a população, aí sim teria problemas. Sem ter que se preocupar em encher suas barrigas, as pessoas começam a ter tempo para questionar outras coisas.

Agora você pode estar se perguntando: e as ameaças de guerra nuclear? Exato, elas não são nada mais que isso: ameaças.

Qualquer um que realmente acredite em guerra é porque não parou para pensar no assunto por 5 minutos e não enxergou o absurdo que isso seria. As chances de uma guerra mundial acontecer são próximas de zero.

Por que então eles ameaçam os outros países?

Fazer coisas bizarras como matar seu parente com uma metralhadora anti-aérea ou lançar um míssil contra o Japão atraem mídia. E os portais de notícia têm todo interesse em divulgar uma possível guerra, como se de fato fosse acontecer. Afinal, convenhamos, isso vende jornal.

Com as pessoas ao redor do mundo assustadas, Kim consegue negociar melhor ajuda externa, ou impedir interferências de outros países, em troca de "não atacar ninguém". É óbvio que políticos como o Trump sabem que não tem risco nenhum de ataque, mas eles também decidem entrar no jogo. Lutar contra inimigos do seu próprio país sempre foi uma forma efetiva de conquistar votos. Ou seja, é um win-win.

E por que não fazer sanções como fizeram em Cuba? Isso poderia eventualmente causar uma revolta da população coreana, mas a China rapidamente impediria qualquer ação nesse sentido. Uma população mais miserável inevitavelmente traria milhões de imigrantes sem qualificação para as fronteiras chinesas, o que seria um desastre.

A realidade é que quanto mais maluco e instável Kim parecer, menos os demais países irão querer se meter com ele. E essa é a chave que ele usa para vencer países muito mais fortes: a aleatoriedade.

Assim como no xadrez, bons oponentes sempre serão capazes de prever seus movimentos vários passos à frente. A não ser que você realize ações inesperadas com constância. E isso o líder norte-coreano sabe fazer perfeitamente.

Sempre que ouvir histórias sobre como a Coreia do Norte é um país miserável ou que eles estão testando mísseis nucleares, pode ter certeza, não são a toa. Seu país pode parecer um total fracasso, mas o reinado de Kim Jong-Un é tudo menos isso.

Imagina que você foi fazer uma entrevista de emprego numa grande empresa e, ao passar pela recepção, vê uma pessoa em um terno impecável, varrendo o chão com aquele belíssimo esfregão amarelo e um balde com desinfetante.

Curioso, você pergunta ao entrevistador quem é aquela pessoa.

– É o nosso CEO, responde. Ele acredita que liderar é pôr a mão na massa.

Se você continua achando que trabalhar nesta empresa é uma boa ideia, é bom você repensar quais são os valores ilustrados pela cena.

Primeiro, não cabe ao líder fazer o que os outros fazem. Não é para isto que ele ocupa o cargo. A empresa precisa de alguém que aponte o caminho, que tome decisões e que, de certa forma, inspire seus liderados. Apontar o caminho e tomar decisões é que deve servir como inspiração. Mas enquanto o presidente está varrendo o chão, caminhos estão sendo negligenciados e decisões adiadas.

Segundo, a sensação de justiça retratada nada mais é do que um revanchismo contra alguém que ocupa uma posição superior à sua. Ele não está valorizando o seu trabalho fazendo-o do seu lado. Há formas melhores de fazer isto, sem apelar para demagogia rasteira. Este tipo de atitude só fica bem em um pôster motivacional.

Desses bem bobinhos que motivam funcionários idem.

A Centrífuga 'O líder servidor' também está no formato podcast: